01 outubro 2008

a praça - original de 29/09/08

foto: Alexandre Tokitaka

a praça

Erick Vicente


salto ornamental do obelisco de concreto
um splash respinga no pedestre
banho de sol no patamar da escadaria
braçadas largas no rio de azulejo
e depois
correndo
fuzuê nos becos

risadas se espalham pela praça
nenhum apelo no passeio
naquela tarde molhada
a molecada se aglomera
num só

anseio


29 setembro 2008

alimentoexcremento - original de 15/06/2006


caixinha de música - original de 02/10/2007


caixinha de música
Erick Vicente


a caixinha de musica toca
preguiçosa
para sua bailarina muda

detém os sonhos momentâneos
que giram na saia rosa
e dura

reflete no espelho
o rimel e o blush
das meninas da formatura

das crianças mimadas
das prostitutas


a bailarina dança só
passos monótonos
e uma perfeita envergadura

a caixinha toca
detém o futuro
no tempo de sua corda

25 setembro 2008

Quarteirões - original de 10/03/08


foto: Eduardo Simões


Quarteirões
Erick Vicente

os quarteirões passam
lentos e fedidos
do outro lado do vidro

os confundo
numa desatenção repentina

os deixo
nos quilômetros percorridos



os quarteirões
pulam e tremem
nos obstáculos vencidos

fervem
na festa e no perigo

do final de um dia repetido



apertado olho
a paisagem cansativa
e o sono dos sentados

ao fundo uma garota
esquecida e esparramada
no assento alto

terna se transporta
com seus olhos exaustos
daquele muquifo


através do fone de ouvido

Ansiedade - original de 12/03/07

Ansiedade
Erick Vicente


roça os lábios crus com uma delicadeza não calculada
em todos os dentes o mesmo desejo encharcado de saliva
a garganta arranhada de tanto engolir refeições imaginárias
e olhos desapercebidos procuram verdades de fumaça


na poltrona alaranjada mantém a mesma postura confortável
com os dedos desliza sob os botões variados do controle
no televisor um volume baixo zumbisa em ecos pela sala
mas na febre fria do inverno junino sua atenção destacada falha

viaja dentro de sua falta de sentidos como se não tivesse escolha
estipula e especula sobre o presente e futuro de dúvidas baratas
gasta seu vigor numa busca atrapalhada por um tesouro sem mapa
e só se mobiliza com a fúria necessária quando toca o telefone