19 abril 2010

Pote e Chiclete - original de 07/2009

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Pote e chiclete
Erick Vicente
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Sobre o balcão brilha em multicores o pote de doces. Se destaca das latas ocas de mantimentos e do suporte de temperos. O chiclete é o mais bonito entre as balas de caramelo, os pirulitos e as sete-belos.
O menino observa sedento. Deixa escorrer a baba pelo o queixo. Ignora a chupeta, deseja o chiclete na impaciência de seus gestos. Mas como possuí-lo, se o balcão é inalcançável? Como mastigá-lo, se não há dentes nascidos?

verso - original de 06/2009

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verso
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verso reverso verso
inverso verso inverso
reverso inverso verso
universo

vejo revejo vejo
invejo vejo invejo
revejo invejo revejo
antevejo

vejo verso
invejo inverso
revejo reverso

invejo verso revejo
reverso vejo reverso
vejo verso inverso

antevejo universo

12 abril 2010

ratos - original de 06/2007



Ratos
Erick Vicente



de pêlos
e garras e dentes
e rabo
rastejam

sujos
resmungam nos canos
no lixo nas valas nos vales
nas lajes

seguem nas sombras
almejam
se guiam no rastro do cheiro

de cada resto
pedaço esquecido

fervilham nos milhares
de tubos complicados
e conhecidos

nos esgotos
um pedaço de queijo

depois fedem satisfeitos

céu - original de 07/2009



Foto: João Carlos Frigério

Céu


o céu se movimenta
sem velocidade calculada

o céu
se movimenta
de acordo com o seu capricho



não se importa com as intuições
os paletós cachecóis
bonés
as mangas curtas e guarda-chuvas

dança
sobre os boletins meteorológicos


o céu se desfaz
de toda aurora programada
de todo feriado prolongado

não tem piedade
dos bairros alagados dos ambulantes queimados

não escolhe o território
não chove em proporção


o céu
desconhece
sua própria mística

se desmancha
ante sua física

nos interrompe toda correria

reinventa
seu próprio ciclo

06 abril 2010

Tempestade

05/04/2010
Para T.V.

foto: Jorge C. Reis - http://www.pontoblogue.com/

o dia
cinza
chovia

um desejo fino

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nuvens
carregadas
queriam

um beijo umedecido

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vento
zunindo
clamava

por pedidos de carinho

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tempestade
anunciada

dilúvio
destino

18 outubro 2009

Olhos - original de julho de 2008


imagem: Getty Images


Olhos
Erick Vicente

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os olhos
amanhecidos retratam
a paisagem de asfalto

durante o dia se apertam
pelo sol reluzente
se fecham nos coletivos

viajam por entre
as torres de vidro
nos semáforos lamentam
o tempo perdido


de noite
nos fleches do strobo
assuntam o recinto

se alertam
no pó e no vinho
relaxam
nos corpos vizinhos


no final de semana
sob os documentários televisivos
desacreditam

ao passar
pelas fotos antigas
transbordam

Fumaça - original de abril de 2007

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Fumaça
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Erick Vicente
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A fumaça, depois de tragada e processada nos alvéolos, é soprada com os lábios enrijecidos para fora do corpo. A fumaça se concentra em um pequeno rastro de nuvem, dança levemente ao temperamento do vento, se contorce, se espalha e sobe esparsamente para as estrelas. A fumaça leva os olhares mais fugidos e sem motivos durante um cigarro. Nas noites claras e quentes durante um final de semana sem movimento ou convites, um cigarro controla as atenções como um protagonista, enquanto o sono voa. Um cigarro organiza as idéias confusas da insônia. A fumaça se confunde com os sonhos, pois os dois queimam a garganta, se projetam corpo a fora para dançar conforme o clima, se contorcem, se esparsam e sobem.

olho olha - oroginal de agosto de 2007

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Entre - original de Junho de 2007

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Entre
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Erick Vicente
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Dentro e fora; esquerda e direita; acima e abaixo; pra lá e pra cá; norte e sul; psdb e pt; dia e noite; frente e traz; começo e fim... aonde se está, como se encontra, qual o tempo, espaço... não há extremos, não há dois lados... Estamos sempre no entre.

Cegueira - original de outubro de 2007


Renè Magritte, The Lovers, 1928



Cegueira
Erick Vicente


o cego
dentro de suas trevas
dança mais animado
os sons da cidade

não disputa
os primeiros assentos
dos shows de música

e sempre tateia
livre de imagens
toda feiúra

o cego não
dita pelos olhos
suas musas